Sempre que viaja ao exterior, Bia Ferreira, maior esperança de medalha olímpica do Brasil no boxe, gosta de buscar uma “lembrancinha”. Mas e...
Sempre que viaja ao exterior, Bia Ferreira, maior esperança de medalha olímpica do Brasil no boxe, gosta de buscar uma “lembrancinha”. Mas ela não vai atrás de ímãs de geladeira ou souvenirs. Sua fixação é por medalhas. Ao longo de 20 viagens desde que entrou para a seleção brasileira, em janeiro de 2016, como reserva da medalhista olímpica Adriana Araújo, Bia subiu ao pódio em 19 oportunidades. A única exceção foi o Mundial feminino de boxe do ano passado, disputado em Nova Déli, na Índia. Sua campanha foi interrompida na segunda luta após derrota para a sul-coreana Oh Yeon-Ji, em decisão apertada dos árbitros (3 a 2).
O Mundial deste ano transcorre em Ulan-Ude, na Rússia. A cidade, a terceira maior da Sibéria Oriental, é uma terra de guerreiros, fundada pelos temíveis cossacos. A localidade é um entreposto de comércio com a Mongólia. Mas a baiana não pretende se inspirar nesse palco de batalhas antes de subir ao ringue. Ela considera que o ímpeto desmedidamente ofensivo foi a raiz da derrota na Índia, um insucesso muito difícil de engolir, e aposta num padrão mais cerebral.
“Eu usava muita força desnecessária. Sempre apostei num estilo mais combativo, é o que me fez chegar até aqui. Mas aquela derrota me fez perceber que a gente nunca é perfeita. É preciso jogar mais o boxe, usar o espaço do ringue, caprichar no movimento das pernas. É isso que estava faltando para mim”.
Filho de Marcos Macedo, um dos lendários treinadores que fizeram o nome do Centro Olímpico no boxe, ao lado de Messias Gomes, o jovem técnico Leonardo Macedo, da seleção brasileira, atesta que a derrota abalou as estruturas da forte Bia. “Ela sofreu mesmo, ficou mal. Foi necessária muita conversa, muito treino para resgatá-la, sempre com o apoio da psicóloga Marisa Markunas”, diz Macedo, que cresceu acompanhando o pai nas saudosas noitadas de pugilismo do Baby Barioni, no bairro paulistano da Água Branca.
Bia foi buscar sua reabilitação no Strandja Tournament, o mais antigo torneio de boxe da Europa. Na 70ª edição do evento realizado em Sofia, na Bulgária, a representante do Brasil na categoria até 60 quilos mostrou um repertório bem mais amplo no quadrilátero. “Eu ainda estava com aquele gostinho amargo da derrota no Mundial. No Strandja, fiz quatro lutas porreta. Testei todos os jogos que tinha treinado”.
Mas que ninguém pense que a marca registrada da lutadora, um poder de punch impressionante, foi abandonado. A diferença é que, agora, essa é apenas uma das armas de Bia. “Ela sempre confiou demais no poder dessa pegada, e isso é natural. Se posso resolver tudo dando uma cacetada, para que vou buscar um estilo mais refinado? Assim que ela pensava. A gente ajudou ela a perceber que os árbitros avaliam outros aspectos. Então hoje vemos uma Bia que trabalha na linha da cintura, coordena pernas e braços, entra e sai do raio de ação do adversário. É uma boxeadora que teve sempre o ímpeto de ir buscar a adversária, mas às vezes é melhor esperar. Em maio, ela confirmou essa evolução. Fez uma luta na República Checa com uma turca (Sema Caliskan) alta, boa, rápida. Eu a orientei a não entrar no raio de ação dela, por causa da diferença de envergadura. A Bia fez uma luta fustigando a turca, saindo o tempo todo. Foi perfeita. Eu até me arrepio falando isso. Ela entendeu que o boxe é feito de estratégia: é xadrez", empolga-se Leo.
Nos Jogos Pan-Americanos de Lima, Bia confirmou essa evolução conquistando a medalha de ouro, apenas a segunda em toda a história da participação brasileira no evento. A conquista inaugural foi de Pedro Lima, o Peu, na edição do Rio, em 2007.
Por conta de irregularidades na gestão da Aiba (Associação Internacional de Boxe Amador), a entidade está suspensa pelo Comitê Olímpico Internacional, e os Mundiais regidos por ela, tanto o masculino como o feminino, não são classificatórios para a Olimpíada. Os pré-olímpicos serão organizados pelo Comitê Organizador dos Jogos de Tóquio, em parceria com o COI. Haverá pré-olímpicos continentais entre janeiro e abril do ano que vem. O das Américas será em Buenos Aires. A segunda e derradeira chance de obtenção de vaga será o Pré-Olímpico Mundial de Paris, em maio.
Mesmo assim, o Mundial é um evento importante, reunindo 78 países e mais de 370 boxeadoras. Apenas três delas são brasileiras, pois a Confederação Brasileira de Boxe resolveu enviar uma delegação pequena. Além de Bia, representarão o País Jucielen Cerqueira, que conquistou prata no Pan de Lima na categoria até 57kg, e Graziele Jesus (até 51kg).
“É um torneio importante. É nesse tipo de competição que as atletas aprendem a lutar contra a pressão. Delegações fortes do boxe feminino, como a do Cazaquistão e da Índia, vão enviar até fisioterapeuta, médico, árbitros...”, inveja Leo.
Jucielen é outra esperança de medalha do Brasil, mas, aos 21 anos, ainda carece de maior experiência. “A Juci é muito técnica, tem um potencial gigantesco. Entrou na seleção em 2017 e vem amadurecendo como atleta internacional. Ela está percebendo que, nesse nível, precisa ser dura, malandra”, avalia o treinador. “O Pan foi muito bom pra ela. Na semifinal, passou o carro em cima de uma adversária forte, a norte-americana Yarisel Ramirez”, elogia o treinador.
Natural de Rio Claro, onde funciona o projeto MM Boxe, Jucielen foi descoberta num projeto social esportivo por Marcos Macedo, o pai de Leonardo.
“Estou mais tranquila agora, com a medalha do Pan. Vim de uma categoria inferior (até 54kg) e estou enfrentando meninas mais fortes, estou me acostumando. Algumas até desceram da 60kg. Fiquei feliz com meu desempenho em Lima. Sou nova ainda, mas quero conquistar minha medalha já em Tóquio. Minha tendência é só melhorar. Gosto de boxear andando para trás. Não sou muito de tomar a iniciativa. Preciso ir mais para a frente”, avalia a paulista.
Graziele também tem suas chances de pódio, segundo Leo Macedo. “É a mais experiente do grupo (30 anos). No Mundial do ano passado, chegou às quartas de final, ficou a uma vitória da medalha. Acho que temos três chances de medalha antes de sabermos o chaveamento. Mas só a Bia é que permanece cotada para o pódio, independente do que quer no sorteio”, avalia o técnico.
Fonte: YahooEsportes
O Mundial deste ano transcorre em Ulan-Ude, na Rússia. A cidade, a terceira maior da Sibéria Oriental, é uma terra de guerreiros, fundada pelos temíveis cossacos. A localidade é um entreposto de comércio com a Mongólia. Mas a baiana não pretende se inspirar nesse palco de batalhas antes de subir ao ringue. Ela considera que o ímpeto desmedidamente ofensivo foi a raiz da derrota na Índia, um insucesso muito difícil de engolir, e aposta num padrão mais cerebral.
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| Bia Ferreira testa sua evolução no Mundial de boxe de Ulan-Ude, na Rússia |
“Eu usava muita força desnecessária. Sempre apostei num estilo mais combativo, é o que me fez chegar até aqui. Mas aquela derrota me fez perceber que a gente nunca é perfeita. É preciso jogar mais o boxe, usar o espaço do ringue, caprichar no movimento das pernas. É isso que estava faltando para mim”.
Filho de Marcos Macedo, um dos lendários treinadores que fizeram o nome do Centro Olímpico no boxe, ao lado de Messias Gomes, o jovem técnico Leonardo Macedo, da seleção brasileira, atesta que a derrota abalou as estruturas da forte Bia. “Ela sofreu mesmo, ficou mal. Foi necessária muita conversa, muito treino para resgatá-la, sempre com o apoio da psicóloga Marisa Markunas”, diz Macedo, que cresceu acompanhando o pai nas saudosas noitadas de pugilismo do Baby Barioni, no bairro paulistano da Água Branca.
Bia foi buscar sua reabilitação no Strandja Tournament, o mais antigo torneio de boxe da Europa. Na 70ª edição do evento realizado em Sofia, na Bulgária, a representante do Brasil na categoria até 60 quilos mostrou um repertório bem mais amplo no quadrilátero. “Eu ainda estava com aquele gostinho amargo da derrota no Mundial. No Strandja, fiz quatro lutas porreta. Testei todos os jogos que tinha treinado”.
Mas que ninguém pense que a marca registrada da lutadora, um poder de punch impressionante, foi abandonado. A diferença é que, agora, essa é apenas uma das armas de Bia. “Ela sempre confiou demais no poder dessa pegada, e isso é natural. Se posso resolver tudo dando uma cacetada, para que vou buscar um estilo mais refinado? Assim que ela pensava. A gente ajudou ela a perceber que os árbitros avaliam outros aspectos. Então hoje vemos uma Bia que trabalha na linha da cintura, coordena pernas e braços, entra e sai do raio de ação do adversário. É uma boxeadora que teve sempre o ímpeto de ir buscar a adversária, mas às vezes é melhor esperar. Em maio, ela confirmou essa evolução. Fez uma luta na República Checa com uma turca (Sema Caliskan) alta, boa, rápida. Eu a orientei a não entrar no raio de ação dela, por causa da diferença de envergadura. A Bia fez uma luta fustigando a turca, saindo o tempo todo. Foi perfeita. Eu até me arrepio falando isso. Ela entendeu que o boxe é feito de estratégia: é xadrez", empolga-se Leo.
Nos Jogos Pan-Americanos de Lima, Bia confirmou essa evolução conquistando a medalha de ouro, apenas a segunda em toda a história da participação brasileira no evento. A conquista inaugural foi de Pedro Lima, o Peu, na edição do Rio, em 2007.
Por conta de irregularidades na gestão da Aiba (Associação Internacional de Boxe Amador), a entidade está suspensa pelo Comitê Olímpico Internacional, e os Mundiais regidos por ela, tanto o masculino como o feminino, não são classificatórios para a Olimpíada. Os pré-olímpicos serão organizados pelo Comitê Organizador dos Jogos de Tóquio, em parceria com o COI. Haverá pré-olímpicos continentais entre janeiro e abril do ano que vem. O das Américas será em Buenos Aires. A segunda e derradeira chance de obtenção de vaga será o Pré-Olímpico Mundial de Paris, em maio.
Mesmo assim, o Mundial é um evento importante, reunindo 78 países e mais de 370 boxeadoras. Apenas três delas são brasileiras, pois a Confederação Brasileira de Boxe resolveu enviar uma delegação pequena. Além de Bia, representarão o País Jucielen Cerqueira, que conquistou prata no Pan de Lima na categoria até 57kg, e Graziele Jesus (até 51kg).
“É um torneio importante. É nesse tipo de competição que as atletas aprendem a lutar contra a pressão. Delegações fortes do boxe feminino, como a do Cazaquistão e da Índia, vão enviar até fisioterapeuta, médico, árbitros...”, inveja Leo.
Jucielen é outra esperança de medalha do Brasil, mas, aos 21 anos, ainda carece de maior experiência. “A Juci é muito técnica, tem um potencial gigantesco. Entrou na seleção em 2017 e vem amadurecendo como atleta internacional. Ela está percebendo que, nesse nível, precisa ser dura, malandra”, avalia o treinador. “O Pan foi muito bom pra ela. Na semifinal, passou o carro em cima de uma adversária forte, a norte-americana Yarisel Ramirez”, elogia o treinador.
Natural de Rio Claro, onde funciona o projeto MM Boxe, Jucielen foi descoberta num projeto social esportivo por Marcos Macedo, o pai de Leonardo.
“Estou mais tranquila agora, com a medalha do Pan. Vim de uma categoria inferior (até 54kg) e estou enfrentando meninas mais fortes, estou me acostumando. Algumas até desceram da 60kg. Fiquei feliz com meu desempenho em Lima. Sou nova ainda, mas quero conquistar minha medalha já em Tóquio. Minha tendência é só melhorar. Gosto de boxear andando para trás. Não sou muito de tomar a iniciativa. Preciso ir mais para a frente”, avalia a paulista.
Graziele também tem suas chances de pódio, segundo Leo Macedo. “É a mais experiente do grupo (30 anos). No Mundial do ano passado, chegou às quartas de final, ficou a uma vitória da medalha. Acho que temos três chances de medalha antes de sabermos o chaveamento. Mas só a Bia é que permanece cotada para o pódio, independente do que quer no sorteio”, avalia o técnico.
Fonte: YahooEsportes


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